MULHER QUE FAZ CIÊNCIA

13 março 2019
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No Mês da Mulher, conheça algumas pernambucanas que atuam em áreas que já foram majoritariamente masculinas

Kátia Aquino é Química, com mestrado e doutorado em Tecnologias Energéticas e Nucleares e Pós-doutorado em Educação Tecnológica. Pesquisa aditivos sustentáveis para que polímeros que são usados na indústria médica, como próteses por exemplo, possam ser esterilizados via radiação gama. Segundo ela, a área de Energia Nuclear já foi muito mais restrita aos homens. Mas as mulheres têm, cada vez mais, expandido sua presença. Ela é a menina que sempre gostou de matemática e das Ciências Exatas e que, por isso, era chamada de CDF. É também a criança que sempre quis ser professora e, hoje, une as duas áreas para descobrir maneiras de estimular o interesse pela Química na escola, para que outras meninas, como ela, ocupem estes espaços outrora reservados aos homens. Kátia será a primeira de nossa série de entrevistas com cientistas pernambucanas que atuam em áreas que já foram majoritariamente masculinas.

ESPAÇO CIÊNCIA – Primeiro eu queria que você se apresentasse: fale um pouco de teu currículo e da pesquisa que você vem desenvolvendo atualmente…

KÁTIA AQUINO – Sou licenciada em Química, tenho mestrado e doutorado em Tecnologias Energéticas e Nucleares; e Pós-doutorado em Educação Tecnológica. Sou docente do Colégio de Aplicação da UFPE e pesquisadora no Departamento de Energia Nuclear, junto ao Programa de Pós-graduação em Tecnologias Energéticas e Nucleares. E faço parte também do Colegiado do Mestrado Profissional  no Ensino de Ciências Ambientais. Tenho dois focos de pesquisa. Um diz respeito à degradação e estabilização de sistemas poliméricos. O objetivo é desenvolver aditivos sustentáveis para que polímeros que são usados na indústria médica, como próteses por exemplo, possam ser esterilizados via radiação gama. Alguns desses aditivos são à base do óleo da borra do café, da gordura extraída do caroço da manga, entre outros aditivos sustentáveis. O outro foco é a inovação na educação e o desenvolvimento do senso crítico a partir da promoção da aprendizagem significativa. São dois focos bem diferentes mas que, na verdade, se complementam.

ESPAÇO CIÊNCIA – Você sempre se interessou pela Química? Como despertou para esta área e, quando criança, que matérias eram preferidas?

KÁTIA AQUINO – É interessante como essa vocação para o ensino me acompanha sempre.  Desde pequena, quando me perguntavam o que eu queria ser, eu dizia: professora ou bailarina.  Nessa época, eu não sabia o que eu gostaria de ensinar. Mas minha afinidade era com a Matemática e a área de Ciências Exatas. Quando eu entrei no Ensino Médio, estudante de escola pública, eu não tive, na época, acesso às aulas de Química. Ficamos muito tempo sem um professor de Química. Então eu acabei despertando o interesse para a Biologia e fiz meu primeiro vestibular para essa área. Mas não passei em uma universidade pública e minhas condições financeiras não permitiam que eu cursasse uma faculdade privada. Então comecei a estudar por conta própria. Peguei vários livros para ler e foi justamente em livros, como os de Marta Reis e Tito e Canto – que tratam da Química no cotidiano, que eu me apaixonei pela Química.

ESPAÇO CIÊNCIA – Tua família e amigos te estimularam para investir nessa área?

KÁTIA AQUINO – Todos sempre me apoiaram, qualquer que fosse minha escolha.  Mas era engraçado porque existia aquela ideia de que eu era CDF porque gostava de matemática. Então, quando eu enveredei pela Química, não houve surpresa nenhuma porque todos já sabiam que eu gostava da área de Ciências Exatas.

ESPAÇO CIÊNCIA – Você já se sentiu subestimada ou desvalorizada por conta do gênero?

KÁTIA AQUINO – Eu sempre vivi em um ambiente muito saudável e procurei me cercar de pessoas que soubessem me valorizar.  A área de Tecnologias Nucleares é uma área muito masculina, mas eu sempre demonstrei o meu entusiasmo pelo trabalho e sempre vi  qualquer pedra em meu caminho como pedra e não como montanha.  Os obstáculos são naturais, a gente precisa superar. Mas nunca senti qualquer impacto do gênero em meu percurso. Sempre mostrei que sou capaz e estou mostrando até hoje que posso estar junto com cientistas que trabalham com aplicações nucleares, independente do gênero.

ESPAÇO CIÊNCIA – Como você vê, atualmente, a presença das mulheres nesta área?

KÁTIA AQUINO – As mulheres têm expandido sua presença. Essa era uma área que era muito mais restrita aos homens, mas hoje a gente vê que as mulheres têm desbravado caminhos maravilhosos e acho que isso tem a ver com um avanço no empoderamento feminino, de sermos capazes de reconhecer nosso potencial  e superar desafios.

ESPAÇO CIÊNCIA – E, como líderes de pesquisa, como é a presença das mulheres?

KÁTIA AQUINO – Hoje a gente já vê muitas mulheres como líderes de pesquisa. Eu sou líder de um grupo de pesquisa que é o GEPAS – Grupo de Estudos e Pesquisa em Aprendizagem Significativa. É fato  que, em algumas áreas, ainda existe uma predominância masculina. Mas a gente percebe que há um avanço.

ESPAÇO CIÊNCIA – Tem dificuldades para conciliar as atribuições domésticas e profissionais?

KÁTIA AQUINO – Hoje não tenho mais essa dificuldade. Meu filho é adulto, tem 24 anos, não mora comigo e tenho uma pessoa que me ajuda em casa. Mas, no momento em que eu estava fazendo o doutorado, meu filho era pequeno. E eu tive que fazer algumas escolhas, porque a formação de cientista exige muito de você: horas de trabalho e de estudo… E sei que perdi muitas fases do desenvolvimento de meu filho. Mas não acho que isso tenha tido impacto na formação dele como ser humano, profissional e cidadão.

ESPAÇO CIÊNCIA – O que falta para que as mulheres se interessem pela Química? O que as afasta da área de Exatas?

KÁTIA AQUINO  – Eu acho que o interesse tem muito a ver com a forma com a qual as áreas são apresentadas. Quando pequenas, as crianças têm afinidade com algumas competências e, na escola, isso pode se solidificar. Ou não. Se todas as áreas forem apresentadas de forma interessante, a gente tem mais liberdade para escolher. A Química, aplicada no dia a dia, pode ser muito atrativa e interessante. Mas nem sempre ela é apresentada dessa maneira.  É preciso mostrar o que o profissional da Química faz, como ela pode ser útil para a sociedade.